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Projeto Estigma

Estigma é uma palavra que significa uma marca negativa colocada sobre a pessoa. Vivemos hoje uma situação em que as pessoas com transtornos mentais, em particular a esquizofrenia, se mobilizam para terem seus direitos reconhecidos. Infelizmente esta é uma situação que não se resolve unicamente com leis contra a discriminação. Trata-se de uma questão mais profunda, que tem raízes na História e na maneira como as pessoas aprendem seus valores na vida em sociedade. O estigma em relação aos transtornos mentais tem um grande impacto na vida dos portadores, por isto vem sendo muito estudado e começa a ser uma preocupação das autoridades em saúde.
 
Existem várias formas de discriminação em relação aos portadores de esquizofrenia, baseadas em preconceitos (ou julgamentos prévios), ou seja, mesmo que a pessoa não dê nenhum motivo para isso. Por exemplo, considerar que ela é incapaz ou não tem inteligência; julgar que ela é perigosa ou não é confiável; achar que ela não percebe quando está sendo manipulada ou que é lícito direcionar suas ações; fazer piadas de mau gosto ou menosprezar o que a pessoa diz; entre outros.
 
A esquizofrenia e a forma como ela se manifesta é desconhecida para a grande maioria das pessoas, como conseqüência elas rotulam as pessoas que têm a doença por seu comportamento diferente, sem perceberem que essa atitude gera sofrimento e isolamento. É necessário por um lado diminuir a desinformação, através de programas educativos e de movimentos sociais de defesa de direitos. Por outro lado, as pessoas afetadas pelo estigma podem ter suas vidas mais preservadas se souberem como lidar com as situações que ele coloca.
 
 Aprendemos como as coisas e as pessoas são através do convívio em sociedade, família, escola, trabalho e entre amigos. Aprendemos nas relações através do hábito. E o que é visto como ‘diferente’ está dentro do campo do desconhecido. Assim é com a esquizofrenia - imagine como seria viver sem que as outras pessoas tivessem noção do que se passa com você! É isso que acontece com as pessoas com esquizofrenia.
 
A esquizofrenia é uma doença que para muitas pessoas causa limitações, decorrentes da perda de algumas habilidades, tais como dificuldade para conversar, fazer e manter os amigos e realizar algumas tarefas do dia a dia. A percepção dessas perdas gera a sensação de incapacidade e um sentimento de inferioridade. Nós vivemos atravessados por muitos sentimentos e situações, não dá para classificar o que é cada coisa, mas sentimentos de constante inferioridade e baixa auto-estima fazem com que as nossas limitações fiquem ainda maiores e pareçam intransponíveis. No entanto, é preciso lembrar que todas as pessoas têm limitações, essa é uma característica humana. O grande desafio é aprender a lidar com as limitações que fazem parte das nossas vidas.
 
A aceitação de que se tem esquizofrenia é um processo difícil, marcado por perdas e desilusões. Muitas pessoas não aceitam e não seguem os tratamentos. Esse processo é marcado por situações e experiências que acabam por constituir o auto-estigma, e a pessoa muitas vezes perde boas oportunidades na vida por receio ou medo que experiências ruins do passado se repitam. O auto-estigma faz com que as pessoas pensem que sejam mais limitadas do que na realidade são. Ele dificulta que a pessoa veja as suas reais capacidades. É importante sempre lembrar que na esquizofrenia ‘cada caso é um caso’ e ‘cada situação é diferente da outra.” É importante procurar sempre melhorar, não se desanimar ou achar que porque se tem esquizofrenia todas as portas estão fechadas
 
Ao longo dos séculos pessoas com esquizofrenia foram rotuladas de loucas e internadas em asilos pelo resto da vida. Felizmente nos últimos cinqüenta anos foram desenvolvidos tratamentos que permitem que essas pessoas vivam na comunidade, medicamentos mais atuais inclusive permitem que vivam com qualidade. Acontece que o peso desse rótulo ainda é muito forte na sociedade, onde ainda há muito desconhecimento e desinformação. O estigma é o resultado de como os transtornos mentais são vistos no seu tempo; se sabemos hoje que transtornos mentais são doenças que têm tratamento, devemos trabalhar para que sejam vistos como qualquer outra doença física.
 
Combater o estigma é uma necessidade fundamental para uma sociedade mais justa, para que as pessoas com transtornos mentais tenham seu espaço respeitado. Entretanto, na vida cotidiana devemos, para bem viver, não deixar que o preconceito e a discriminação nos tornem pessoas amargas, pois isso nos priva de aproveitar as relações gratificantes com as pessoas que não nos estigmatizam. O isolamento social é um dos aspectos da esquizofrenia mais difíceis de serem tratados. Entretanto, a nossa experiência mostra que quando as pessoas com esquizofrenia se sentem aceitas e acolhidas o isolamento diminui e a qualidade de vida melhora.
 
O convívio com a esquizofrenia na própria vida, como vimos, é uma mudança muito grande e que deixa marcas profundas. O estigma existe, ele exclui, magoa e diminui as chances de uma vida digna. Diante dessa realidade as pessoas que tem esquizofrenia e seus familiares, para viver bem, têm que procurar no seu cotidiano e na sua comunidade, espaços onde tenham a possibilidade de participar e serem aceitos. Isso só acontece quando estamos abertos para aprender e crescer e quando não aceitamos o lugar de vítimas onde podem nos querer colocar.
 
Não existem soluções prontas, mas acreditamos que elas podem ser encontradas sempre a partir do diálogo entre os envolvidos. O diálogo nos fortalece inclusive para lidar com o estigma nas nossas vidas e contribuir para uma sociedade sem rótulos. Isso se dá na medida em que exista a aceitação da presença da esquizofrenia, sem se envergonhar ou ficar no lugar de vítima. Alguém já disse que é o oprimido quem tem nas mãos o poder de libertar tanto o oprimido como o opressor. Vento ao nosso favor quem faz somos nós.